Proposta



“Os pequenos nos convidam a experimentar.
Eles têm a arte dentro de si. Eles criam arte.
Eles dizem algo. Algo que perdemos.
Algo atraente e sedutor. Algo que não reconhecemos.
E que não podemos explicar. Tudo é muito maior.
Para as crianças pequenas existe uma conexão direta entre vida e obra. Essas são coisas inseparáveis.”[1]

A expansão do corpo que acontece durante a gestação traz para a mulher uma nova percepção do seu estar e uma dúvida quanto ao seu vir a ser. Neste movimento de transformação e abertura para o novo é fundamental a construção de um espaço-tempo que possibilite experimentar e receber este momento: o presente. Abrir espaços para receber este presente durante a ’"fase do colo’, que começa no momento do nascimento e termina quando o bebê começa a mover-se, quando pode afastar-se do seu cuidador e voltar quando queira”. E não só. O contato e o vínculo são necessários para participar do cotidiano e nesta fase há uma necessidade da criança para desenvolver-se e tornar-se parte do mundo que vive. E é neste movimento mamãe-bebê que se garante a segurança da criança para explorar e experimentar aquilo que o cerca. 
Quem é este novo ser?
Como cuidar deste bebê?
Como brincar?
O que ensinar?
Como limitar sem ser limitante?
Mais do que simplesmente estimular a curiosidade, é necessário apurar os sentidos e abrir os poros para escutar este ser e exercitar a presença junto deste bebê. Ao proporcionar um espaço seguro para brincar/jogar/experimentar com sabores, texturas, cores, luzes, corpo e música, esta oficina pretende despertar uma consciência de ser e estar de corpo e alma. Essa presença é um contraponto importante na construção de um mundo onde as relações se estruturam no amor e na alegria do encontro com este bebê e no reencontro com esta família que nasceu junto com ele. 




Experiência, significado e sentido

“A experiência, a possibilidade de que algo nos passe ou nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.”[2]  

Neste mundo onde a quantidade e a disponibilidade de informação é cada vez maior, onde tudo passa cada vez mais depressa e pode ser reduzido a um estímulo instantâneo, que será imediatamente substituído por outro, igualmente efêmero, é cada vez mais raro encontrar o lugar para a experiência. Passamos a nos relacionar com tudo que nos rodeia como consumidores. Consumidores de estímulos, de informação e de tempo. Tudo nos passa e nada nos acontece. Experiência é corporificar nossas vivências, sensibilizar aquilo que vivemos e produzir sentido. Sentido é o pensamento retrospectivo e o olhar para o futuro, uma conexão para trás e para frente, construindo, assim, um caminho.
Um caminho de sentidos, de sentir, de abrir-se para olhar, cheirar, ouvir, provar e trocar. Caminho que é percorrido junto e se constrói a cada passo. Desta parceria vital que se estabelece entre mãe-filho(a), pai-filha(o) podemos escapar do peso e do medo decorrente de tamanha responsabilidade e descobrir um novo mundo de prazer e sentido. 


Presença, corpo presente

(...) “O fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade. A obra é o caminho e nada mais. Esta liberdade é ambígua ou, melhor dizendo, condicional: a cada instante podemos perdê-la, sobretudo se tomarmos a sério nossa pessoa e nossas obras. (...) Sabedoria e liberdade, vazio e indiferença se resolvem em uma palavra chave: pureza. Algo que não se busca, mas que brota espontaneamente depois de ter passado por certas experiências. Pureza é aquilo que fica, depois de todas as somas e restos.”[3]

O movimento de girar a chave é um gesto artístico que nos leva a olhar pela fechadura e nos presenteia com um mini mundo encantador: um quintal colorido que conta com quatro estações/cantos construídos com filó colorido, criando uma área semi-sombreada filtrada pela luz natural e pelas cores dos tecidos, nos remetendo a simplicidade das festas ao ar livre, as cabanas e os esconderijos tão queridos pelas crianças. Sob este espaço lúdico e seguro, acreditamos ser possível abrir-se para receber este presente e celebrar a alegria deste encontro. 
Esta é a chave com a qual desejamos abrir e revelar este Mini Mundo encantado. Como pensar em Arte e presença sem falar em performance?

“Chamo as ações performativas programas, pois, neste momento, esta me parece a palavra mais apropriada para descrever um tipo de ação metodicamente calculada, conceitualmente polida, que em geral exige extrema tenacidade para ser levada a cabo, e que se aproxima do improvisacional exclusivamente na medida em que não seja previamente ensaiada. Performar programas é fundamentalmente diferente de lançar-se em jogos improvisacionais. O performer não improvisa uma ideia: ele cria um programa e programa-se para realiza-lo.”[4]

A escolha pela Performance como forma nos parece a mais apropriada na medida em que o performer não tem algo pronto, acabado. Ao contrário, apesar de estruturar um programa, este só acontece em relação. 
Aqui, as duas performers organizam um programa a partir da pergunta sobre o lugar da brincadeira na relação entre pais e filhos e estruturam ações simples, como circular por entre pequenos mundos separados apenas provisoriamente. Numa estrutura precisa e elaborada nos lançamos a experimentos. Como sujeito da ação, o Performer abre espaço para que o espectador seja sujeito da ação criativa e ambos partilham de uma experiência criativa. “Um programa é um ativador de experiência. Longe de um exercício, prática preparatória para uma futura ação, a experiência é a ação em si mesma. (...) Ou seja, uma experiência, por definição, determina um antes e um depois, corpo pré e corpo pós-experiência. Uma experiência é necessariamente transformadora, ou seja, um momento de trânsito da forma, literalmente, uma trans-forma. As escalas de transformação são evidentemente variadas e relativas, oscilam entre um sopro e um renascimento.”[5]
O bebê é só presença e esta sensação é ampliada para seus cuidadores: cada gesto é potência e criação de corpos.  “O corpo é definido pelos afetos que é capaz de gerar, gerir, receber e trocar.” Aqui somos todos artistas: ao ativar a participação do observador fazemos todos parte de um mesmo sistema. Como num baile onde um sujeito decide convidar outro para dançar.
É preciso compreender a arte como um exercício das possibilidades poéticas da vida como um mecanismo de significação, como uma máquina capaz de gerar outras percepções e realidades. Arte não é um objeto, mas aquilo que acontece entre o ato de fazer e observar, de perceber-se enquanto parte fundamental no processo de construção de algo completamente novo. Um exercício de relação, de troca. Nossa experiência como mães nos faz crer que os bebês acendem nossa chama vital do olhar aberto, corpo em movimento, espaços porosos e alma aventureira. Pulsar vida. 
É aqui, nas múltiplas possibilidades de relações livres, abertas e disponíveis que se viabiliza uma exploração das potencialidades plásticas-estéticas-amorosas presentes no cotidiano. Um olhar para outras possíveis trocas além das atividades mais simples presentes na rotina do bebê (mamar, tomar banho, trocar fraldas...). Como a partir destas atividades as mães/pais/cuidadores podem criar condições favoráveis para que estes gestos se construam a partir de uma organização psicomotora saudável e funcional para facilitar o vínculo e o bem-estar? Ou melhor, como olhar para a rotina com um olhar artístico, poético? 
Metaforicamente se você pode fazer de um punhado de amoras e um pouco de água uma linda tinta natural, porque não fazer poesia com um tapete de folhas caídas? Porque não abrir-se para as possibilidades estéticas daquilo que está ao alcance de nossos olhos? Como enxergar a beleza das coisas aparentemente banais que nos rodeiam?


Após as brincadeiras propomos uma roda de conversa e uma “shantala de limpeza”. Momento de reflexão em que é preciso buscar o equilíbrio entre as ações e suas conseqüências, relacionando o que foi feito com o que foi/é sofrido, unir particularidades aparentemente dispersas em um todo experienciado é o que nos torna aptos a compreender e dessa maneira, produzir conhecimento: um processo de ação do sujeito na construção de um sentido para esta vivência. 



[1] Anna Marie Holm, “Baby-Art – os primeiros passos com a arte”

[2] Jorge Larrosa in “Linguagem e educação depois de Babel.” Ensaios eróticos: experiência e paixão. p.160.
[3] Octavio Paz in “Marcel Duchamp ou O Castelo da Pureza”, 2007, p.64.
[4] Eleonora Fabião in “Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea”. (Sala Preta – Revista da Pós-Graduação em Artes Cênicas ECA-USP, V. 8, n.1, 2008, p. 237.)

[5] Eleonora Fabião in“Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea”, p. 237.

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